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Tudo-Sobre-A-TV

MAIS DO QUE UM BLOG SOBRE TELEVISÃO

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Júlia Pinheiro: "Sou a rainha do trash, com muito gosto!"

Sim, gosto profundamente de mim. Gosto! 

Sai acelerada, como sempre, da sala de maquilhagem. Com ela o ritmo é a 1000 à hora, urgente. "'Bora lá a isto?", despacha. Não há tempo a perder. Só que fazer alguns metros naqueles corredores da SIC que conhece de velhas aventuras parece uma verdadeira prova de obstáculos. É apenas a segunda semana de regresso à casa onde começou na televisão, depois de oito anos na TVI (e uma brevíssima passagem pela RTP). São muitos os ex-colegas que vêm cumprimentar a nova diretora de conteúdos, dão as boas-vindas, metem conversa. Ela ri e fala alto, tem uma palavra para todos. "Esta fase é maravilhosa! Agora ainda me vêm dar beijos, daqui a duas semanas viram-me a cara", atira sarcástica. Júlia Pinheiro é daquelas pessoas de apurada ironia que não perde - jamais! - uma boa piada. Talvez por isso desperte amores e ódios como poucas figuras da televisão, onde já fez um pouco de tudo, dos programas mais sérios tipo "Praça Pública" ou "Noite da Má Língua", às manhãs e tardes para velhinhas donas de casa e reality shows mais variados.

Instalada no seu novo gabinete, pequenino e atafulhado de móveis que herdou do seu anterior ocupante, começa a conversa. Longa e bem-disposta, entrecortada por várias chamadas telefónicas.

Esta entrevista tem muitos parêntesis, com notas e comentários. Tem mesmo de ter. Porque há toda uma enorme dimensão na Júlia que se perde quando a passamos para o papel. Afinal, ela é uma mulher da imagem, fala com as mãos, com o balançar do tronco, com os olhos, com o sublinhar das palavras ou com a célebre gargalhada estridente... Todo o corpo até às pontas dos cabelos ajuda a reforçar a mensagem. Ela que domina as câmaras e as conversas. E que se contém para não ceder a tentação de conduzir a entrevista. Sabe bem o que diz, não cai em deslizes. Domina a cena. Afinal, comunicação é o seu métier. Senhoras e senhores, Júlia Pinheiro.

Já fez milhares de entrevistas. Como é que se sente do lado de lá, como entrevistada? Não gosto nada. Não gosto de ser fotografada, nem de dar entrevistas... Enfim, coitadas de vocês.

Como é que uma mulher que não é uma estampa tipo modelo e que tem uma voz... (acrescenta prontamente) ... de apito! ... histriónica, se transforma na apresentadora mais disputada de Portugal? Esta foi uma contratação muito desejada e muito falada, porque a TVI estava consciente de que a SIC tinha a expectativa de um dia me roubar. Isto acontece justamente porque eu não sou uma estampa. Porque a beleza não é o meu principal instrumento de comunicação.

É, como disse em tempos, o triunfo da mulher comum? Sim, é mesmo isso. A televisão, sobretudo a privada, em tempos apostou muito na beleza e juventude - era preciso caras novas para romper com as da RTP.

Mas a beleza na televisão não é tudo. Não, não é, como aliás em quase tudo na vida. Dou aulas em pós-graduações, e às vezes aparecem-me por lá umas miúdas giríssimas, muito confiantes e eu digo sempre "se não tiveres uma voz tua, algo que te identifique e te distinga das outras pessoas, isso não vai chegar". Mulheres bonitas aparecem 50 todos os anos. Mas aquela que se distingue é a que tem alma, temperatura, que seja capaz de ser próxima, afetuosa, tenha graça, espírito, e uma coisa fundamental: inteligência. As pessoas dizem que não têm uma estratégia de carreira, eu acho isso uma frase feita. Eu tenho uma estratégia de carreira, e consegui sempre alcançar os meus objetivos. Só falhei um - dou graças a deus por isso: ser pivô de informação.

Júlia Pinheiro: 'Sou a rainha do trash, com muito gosto!'
 
 

Felizmente? Sim, não tinha feitio, devia ser um tédio fazer aquilo todos os dias. E cheguei à televisão muito tarde, com 30 anos, e ninguém começa uma carreira na informação com essa idade. E no entretenimento, vamos lá ver... Tive muita sorte, é verdade que é sempre fruto de muito trabalho, mas fui bafejada sempre com pessoas ao meu lado que viram em mim qualquer coisa antes de eu própria ter descoberto.

Como é que tudo começou? Estudei literatura, queria ser arqueóloga - uma coisa um bocadinho esdrúxula - andei em buracos, queria fazer investigação histórica, estava mesmo muito envolvida com aquilo. Até que a minha mãe, empresária e uma pessoa muito pragmática, me disse: "Estás mas é maluca!? Vai para a faculdade, isso não te leva a lado nenhum." E eu entrei para a faculdade tipo (encolhe os ombros, revira os olhos) "eh, que seca, mas vamos lá fazer isto." Um belo dia, na primeira visita de João Paulo II a Portugal, vi dois camiões carregados de jornalistas, e fiquei deslumbrada: "Uau, isto é para mim!" Aos 19 anos já estava a trabalhar.

Fez muitos anos rádio. Deu traquejo? Fiz durante seis anos rádio de forma diária. É na rádio que se forjam os grandes comunicadores. Eu sou capaz de estar a falar até que me deem com uma cadeira em cima! (risos) Apesar disso, quando entrei na televisão durante largos meses sempre que entrava em direto sentia que o traseiro me ia cair...

Hoje ainda sente os nervos do direto? Não, só nas grandes estreias, nos grandes momentos. Quando começo ninguém me agarra, então se for uma coisa que faço profundamente envolvida, motivada, vou por aí fora. Se me divertir, está garantido! Se for um grande frete, bahhh, pode ser que saia bem. Quando comecei queixava-me que tinha a pior voz do mundo, e o meu marido (Rui Pêgo, homem da rádio) dizia-me, cheio de paciência : "Deixa lá que essa voz ainda te vai dar grandes alegrias..." Eu pensava: "Que mentirooooso!" Mas na verdade, até deu... É a minha identidade.

Com o regresso à SIC, é impossível não citar a velho adágio 'o bom filho a casa torna'. Mas também há aquela máxima que reza 'não regresses onde foste feliz'. Acredito que tudo o que existe, existe para ser desfeito. E, sobretudo, acho que não estou a voltar à mesma casa. Estou a voltar a um núcleo de grandes profissionais, que é hoje um negócio diferente, uma grande operação com vários canais. E eu venho num plano diferente, como diretora de conteúdos, com outros interlocutores à minha volta. A maior parte deles conheço como colegas de redação - conheci o Luís Marques como colega, é engraçado.

Sim, na RTP, onde não foi nada feliz, trabalhou com Luís Marques. Conheci-o antes, mas na RTP ele despediu-me (remata rapidamente, com um erguer de sobrancelha).

E ele não deixou má memória? Na verdade, na altura ele tentou imenso que eu não saísse... O Luís andou um ano e meio a tentar convencer-me para eu vir para a SIC, e eu dizia sempre: "eh pá, contigo eu não vou! É que entro e saio..." (risos) E ele respondia que tínhamos de acabar com esse mau karma. Na verdade, ele não teve responsabilidade pela minha saída da RTP, fui uma bandeira para uma questão política.

Quais serão afinal os seus pelouros na SIC? O que vai fazer? Sou diretora de conteúdos de todos os produtos da SIC (SIC generalista e canais temáticos). Contribuo com análise, conceptualização, criação, junto do diretor de programas. Conseguir olhar para uma coisa e conseguir dizer: isto funciona ou não funciona, está bem ou mal feito. Sendo que a estratégia é do Nuno (Santos).

Não haverá divisão de tarefas entre os dois? Não, nenhuma. Eu recebo as coisas, ponho à frente dele, dou a minha opinião e ele decide a estratégia. Eu só dou diagnósticos. Este é aliás o lugar na televisão que eu mais gosto, mais criativo e interessante, com maior liberdade. Contas não é comigo, eh, que porcaria!

Vai além das funções de direção, também apresentar as manhãs e ainda o programa "Biggest Looser", uma das apostas da SIC para este ano. Vai ter tempo para dormir? (risos) Bom, vou ter que me organizar...

É uma pessoa metódica? Não, não sou muito. Sou disciplinada e tenho um grande sentido do dever. Executo as minhas tarefas com rigor, mas não sou de freak control. E tenho uma quase inesgotável capacidade de trabalho. Se estou envolvida numa coisa, apaixonada, saiam-me da frente porque sou capaz de trabalhar horas a fio. Depois chego ao fim de semana e bum!, caio para o lado.

Mas o que lhe dá mais 'pica': pensar e dirigir, ou estar em frente às câmaras? Gosto de pensar, ver se funciona. E depois quando chega o momento de fazer, gosto de me ultrapassar, de me testar a mim própria. E divirto-me imenso.

Esse é o seu segredo? Sim, sem dúvida. Hoje para mim - e isso é só a experiência que dá - o espaço num estúdio é quase doméstico. Estou ali à vontade e acho que é por isso que eu sou eficaz. Podia até dizer: "não faço mais programas de daytime." Mas isso é um erro que não posso correr. O meu primeiro músculo é o da apresentadora, e eu tenho de mantê-lo a trabalhar. Vou todos os dias à antena, e aquilo é ginásio. Às vezes é penosíssimo, às vezes é extraordinário.

Também há dias em que tudo aquilo é simplesmente uma grande seca? Sim, às vezes os dias são muito extenuantes.

Ou não são do seu interesse pessoal. Bom isso do interesse pessoal..., isso é algo que qualquer bom comunicador de televisão deixou láaaa (arrasta) atrás. Nós nunca (enfatiza) fazemos o programa de que gostamos, e quem pensar que vem para aqui fazer o programa que gosta - tchau, adeus que o melhor é ir para casa! Isto não é um espaço de liberdade pessoal, nem de projeção. Senão eu estava a fazer programas de cerâmicas, Conímbriga, etc. Por exemplo, eu detesto astrologia, não acredito nada, nada. E que remédio, aguento aquilo. Cumpro a tarefa.

E quando faz isso põe uma capa? Não, sou só uma mediadora. Mas já cheguei a uma etapa da minha vida em que posso assumir que isso não me entusiasma muito. Ganhei esse espaço com o público, e isso só a experiência é que nos dá. Mas adoro crime, adoro. E adoro paranormal, extraterrestres... alegria absoluta! Não visto uma personagem, até porque não consigo. Tudo o que sinto vem-me à cara.

E isso não pode ser mau em televisão? Acabei por transformar isso a meu favor. A construção de uma personagem televisiva é feita de verdade. Quem tenta compor uma personagem para a televisão fica prisioneiro. E não se consegue fazer o caminho para trás, ou mais difícil, para a frente. Sempre assumi as minhas verdades. E as pessoas percebem-no. É quase sempre um prazer, eu diria que... (reflete) 89% das vezes! (risos)

Há poucas áreas onde a rivalidade pública seja tão grande como na televisão, e especialmente entre os dois canais privados. Como é que se sente quando um dia está na gala de natal da TVI, a vender o canal com fervor, e três semanas depois está a entrar com grande aparato na SIC? Não há a sensação de que está a passar para o lado do inimigo? Não. Eu pertenço a uma tribo, a tribo da televisão. E há uns dias que estou numa fação que é a TVI, noutros na da SIC. Quando informei a TVI de que me ia embora, foi tudo muito civilizado e tranquilo, e até de grande afetividade: tenho um imenso carinho pelas pessoas com quem lá trabalhei. Circunstancialmente, tive que ser eu a fazer aquele alinhamento inicial que deu entrada à gala, porque já tinha sido desenhado em outubro. Ainda tentei mudar aquilo para uma coisa mais discreta, seria mais sensato, mas pediram-me para ficar aquele mês a executar todas as minhas tarefas. Foi o que fiz. Não contava que a SIC me fizesse uma receção tão avassaladora.

Uma coisa épica. Sim, épica! Não imaginava nada assim. Foi um momento muuuito (arrasta) bonito, que vou guardar para todo o sempre. E resultou muito bem - até porque nesse dia ganhámos logo a manhã. A receção dos meus colegas deixou-me de patas para o ar.

Deixou aqui muitos amigos? Nós fizemos aqui os primeiros nove anos da SIC. É como se fossemos guerrilheiros da mesma trincheira, é inesquecível. Pode-se estar em qualquer parte do mundo, mas se for preciso assobia-se e vai-se.

Tem-se a ideia de que a televisão é um mundo de cão. Reúne todos os fatores para a inveja: visibilidade, mediatismo, competição. Este é um mundo muito competitivo. Temos mesmo de ser muito bons, e não há muito espaço para todos. Mas entre nós, damo-nos todos muito bem, porque nos conhecemos há milénios. Sinceramente. Há muito pouco tempo estava em competição direta com a São Lino, que é uma das minhas melhores amigas. Eu dizia sempre, "sim, vou fazer o programa para lhe partir as perninhas, qual é o problema?!", mas quando nos vemos caímos nos braços uma da outra.

Vai trazer uma equipa consigo? Estou a arregimentar um numero de cúmplices que me dão a garantia de fazer o formato que eu tenho na cabeça, e que nos vamos divertir que nem uns malucos! Isto tudo tem que acabar com uma grande gargalhada. Tenho de trabalhar com pessoas com o mesmo grau de loucura que eu, e que alinham pela minha estratégia do disparate. (risos)

Houve um conjunto de transferências conhecidas da TVI para a SIC: a Júlia, a Gabriela Sobral, a Manuela Moura Guedes, vários atores para as novelas. Em que é que se vai traduzir esta 'TVIzação' da SIC? Julgo que não, a SIC tem uma identidade própria.

Não corre o risco de a perder, com tanta gente da estação rival que vem para cá agora em lugares-chave? De forma alguma. A contratação de pessoas que acumularam experiência e know how noutras estações é sempre benéfica. Vamos estar neste coletivo que tem, de facto, uma identidade muito própria. Creio que vamos contribuir para reforçar esta identidade, jamais para a retirar.

A Gabriela é sua amiga, é sabido. E como é a sua relação com a Manuela Moura Guedes? Também estive nas trincheiras com a Gabi, sim! Somos grandes amigas, trabalhámos muito juntas, temos o mesmo olhar. Com a Manela também tenho uma relação muito boa, muito simpática. Não somos amigas nem andamos agarradas uma à outra, mas temos um grande respeito mútuo.

O que acha dela como profissional? Acho-a espantosa, extraordinária. Acho que é uma grande figura da televisão. Tem aquilo que acho indispensável numa grande figura da televisão: não é consensual.

As unanimidades não deixam memória? Ela tem a grande capacidade de congregar à volta dela amores e ódios. É o melhor que podemos ter para dar perfil a um projeto e um formato. É uma grande aposta da SIC.

Mas o que ela faz não é opinião, mais do que informação? Uma das críticas que lhe fazem é que não tem imparcialidade, nem cumpre as regras essenciais do jornalismo de isenção e independência. Bom, tínhamos de ter aqui uma longa discussão sobre qual de vocês é que é absolutamente objetivo e imparcial.

A objetividade absoluta não existe. Sim, mas sobretudo, temos que ver o crescimento da Manuela para um determinado tipo de comunicação à luz do que era preciso fazer na informação da TVI à época para se distanciar e ganhar mercado. Isto não é invulgar lá fora.

Fê-lo para conquistar liderança. Mas Pais de Amaral, por exemplo, diz que esta abordagem não é própria de uma estação líder. Nos Estados Unidos, a Fox News faz incomensuravelmente mais carregado aquilo que a Manela faz. Em Inglaterra a mesma coisa. Em Espanha, todos os jornais tomam posição política. Podíamos estar aqui a ir buscar exemplos em todo o mundo... O que ela faz é, não diria normal, mas existe lá fora.

No seu caso começou pelos programas de infotainment - "Praça Pública", "Noite da Má Língua", "Noites Marcianas", e depois virou-se para o entretenimento, manhãs, reality shows. Fez este percurso só por pura vocação? Fi-lo porque não pude ser pivô de informação. E depois fui aproveitando as oportunidades que foram aparecendo... Ainda bem porque fui muito feliz.

E depois entrou nos reality shows. Houve muito boa gente que pensou: "Oh meu Deus como é que ela é capaz de fazer aquilo!?" (fica séria) Acho que isso é um preconceito perfeitamente estúpido, como aliás são todos os preconceitos. Os reality são talvez a tendência mais marcante dos últimos dez anos da indústria, são os formatos mais procurados e aqueles que têm melhores resultados. Há reality de tudo, e de longe, não temos em Portugal aqueles que são os supostamente mais ofensivos. Eu já vi um com anões a dançar...

Está aí para si a fronteira do telelixo? Bom, isso de falar em trash...

OK, então em teoria: o que é para si trash? Ou nada é lixo? Para mim, trash é atentar contra a dignidade das pessoas.

Como o tal programa com anões? Se eles estão lá é porque querem estar. Mas eu não me importo de incluir um anão num programa, se for para mostrar que isso em nada o diminui. Agora fazer uma coisa em cima das pessoas que sofrem de nanismo parece-me uma espécie de montra de raridades. Jamais compraria um formato desses, e jamais o apresentaria. O trash depende da forma como as coisas são embrulhadas. Há maneiras de fazer as coisas perfeitamente ofensivas e que são consideradas muito sérias. E há outras que não são nada ofensivas, mas porque existe um preconceito... Os reality shows em si não têm problema algum, depende só da maneira como são feitos. E eu, se calhar de forma ingénua, acredito que nunca achincalhei, tratei menos bem ou atentei ou deixei que atentassem contra a dignidade de ninguém. Não tenho na minha consciência nenhum momento menos próprio em que tenha sido parte ou cúmplice. Todos os reality shows que fiz, fi-los na profunda convicção de que ninguém sairia dali mal visto, a não ser que o próprio não se desse ao respeito. Digo com muita convicção: sou a rainha do trash, com muito gosto! Adoro e vou continuar a ser enquanto me deixarem sentar no trono. Não tenho nenhum problema com isso.

Como é que lida com a exposição pública, quando a dona Jaquina a cumprimenta na rua e lhe vem dar beijinhos? Muito bem. Portugal é muito brando nesse aspeto, felizmente. De uma forma geral, as pessoas não incomodam, não somos perseguidos, não nos tocam em excesso. Só há um sítio onde eu não vou: à praia. Deixei de ir à praia a Portugal. Não vale a pena. (tom cómico) A celulite que eu tenho é minha, é minha, é só para mim! Tirando isso, tenho cuidados. Por exemplo, sento-me de costas para a entrada de um restaurante, ando com os olhos no chão na rua para não cruzar o olhar com as pessoas.

E como é que lida com a crítica? Com uma olímpica indiferença.

Essa capacidade ganhou-a com os tempos? Acho que a maioria dos críticos em Portugal não fazem a menor ideia do que estão a falar. As informações que tiram dos sinais da indústria são sempre frívolas, levianas, filtradas por um olhar preconceituoso. A nossa indústria não é frou-frou. Acho abstrusa a snobeira e sobranceria intelectual que parte do princípio de que o que é transversal não presta, e só as coisas de nicho, um bocadinho esdrúxulas, é que têm legitimidade.

E quando as críticas vêm dos seus amigos, das pessoas na rua? Oiço com atenção, vou ver o que fiz. Debato muito com as minhas equipas. Nós, os apresentadores, somos escrutinados todos os dias. Nós é que devíamos ser Presidentes da República, vamos a votos diariamente.

Têm ali as audiências todas contadas ao minuto. Sim, está ali tudo para ver se naquele momento fomos ou não eficazes. Mas encaixo, na boa, as críticas e as coisas menos boas.

Parece uma mulher muito bem resolvida. Onde ganhou essa enorme autoestima? Sim, gosto profundamente de mim. Gosto!

De onde é que isso lhe veio, da educação? Acho que é intrínseco. Mas sou filha única e tive uns pais que me disseram sempre que eu era maravilhosa. E que conseguiria fazer tudo o que eu quisesse fazer. Cresci completamente convencida que aquilo que eu metesse na cabeça ia conseguir fazer.

Não tem medo do ridículo, por exemplo quando se atira para o chão em palco? Não, de todo. Isso é finalmente a grande liberdade. Eu não tenho medo nenhum do ridículo (pronuncia cada palavra pausadamente).

Não se leva muito a sério? Não, acho que sou uma perfeita anedota (tom cómico seguido de gargalhada). Só conheço uma pessoa assim que é o Manuel Luís Goucha. Chegámos a uma etapa das nossas carreiras em que já podemos fazer tudo. Não tenho de provar nada a ninguém, a não ser a mim própria. Eu costumo dizer que faço televisão com azeite até aos joelhos, mas sempre de saltos altos.

O que é que quer dizer com isso, afinal? Posso fazer coisas com uma componente a roçar o piroso, a roçar o kitsch - tudo coisas que eu adoro! - mas estou de saltos altos. Não é por estar a fazer coisas com um acento profundamente popular que vou falar menos bem português ou que não vou recorrer às minhas referências culturais, ou que não trate com a maior deferência e respeito as pessoas que tenho à minha frente.

E tem de controlar a sua ironia para não dizer uma piada? Sim, eu sou muito irónica, mesmo profundamente sarcástica. Às vezes o meu humor é tipo... uii que deixou ferida! Mas tenho que me controlar nalguns contextos, porque não posso mexer com a sensibilidade das pessoas. Estou sempre com uma piada pronta a sair. Às vezes é profundamente cansativo. O meu marido costuma dizer: "Ó mulher intervala!!!" A minha alcunha na televisão é 'varina mágica', que eu adoro.

Uma vez disse, por exemplo, que era a Oprah portuguesa. É uma declaração corajosa, mas pouco modesta. Hoje modificaria. Em tempos quis ser a Oprah portuguesa, agora não quero. Acho que é uma mulher muito inteligente, mas depois de perceber como ela constrói a sua imagem, há um lado profundamente americano e uma certa mitificação dela própria de que eu não gosto. Hoje diria: "Olha querida, tu um dia podes vir a ser a Júlia Pinheiro americana." Mas invejo a liberdade que ela conseguiu alcançar, para fazer o que quer num mercado tão competitivo como aquele.

A Oprah é uma das mulheres mais influentes dos Estados Unidos. A Júlia sente-se poderosa? Como figura da indústria terei alguma influência, penso que a minha opinião no meio será tida em conta.

Mas eu refiro-me ao poder junto do povo. Por exemplo, da tal D. Jaquina, que lhe pede autógrafos e vai comprar uns óculos iguais a esses que tem ao pescoço só porque os viu em si. Nunca vi isso desse ponto de vista. É capaz de acontecer, sim. Mas o que me toca é sentir que, por estarmos ali todos os dias, aquilo é um consolo, um amparo, um aditivo para algumas pessoas e que as ajuda nem que seja um bocadinho. Tenho algumas histórias assim. Quando sentimos que mudámos qualquer coisa na vida de alguém, para melhor. Isso, ahhh!

E quem está todos os dias em frente às câmaras tem o direito a estar mal-disposto, triste ou doente? Afinal, vocês também são humanos. Há dias em que é complicado. O meu pai morreu no ano passado, e houve um processo de três meses muito difícil. Tinha as minhas obrigações de antena e senti que não estava presente para ele, sofri horrores por causa disso. Até pedi aos meus editores que não incluíssem temas que tivessem que ver com cancro, situações-limite, porque sentia que não era capaz de aguentar. Custou-me muito. E ainda me custa. Mas nunca chorei. Só chorei no ar uma única vez, na única circunstância que me arranca logo lágrimas: um nascimento. Venha bebé, eu choro!

Como é que lida com a perspetiva do fracasso? Haverá um dia em que um programa seu não será um sucesso de audiências. É uma ameaça que só pode servir para nos obrigar a partir para os projetos com os instintos todos no sítio, e fazer as coisas bem feitas. Temo que haja um dia em que as pessoas estejam fartas, não achem graça, isso um dia acontecerá. Espero que o mais tarde possível.

Como é que se vê a envelhecer a televisão? Não é fácil. Tenho um grande desprendimento pela minha imagem. Não tenho esse código de obsessão acerca de mim e da forma como envelheço. Sei que tenho que me preocupar, mas sem obsessões. Agora tenho uma batalha constante com o peso, por exemplo.

Essa pressão da imagem chateia-a? Sim, é uma chatice! (risos) Mas faz parte do espetáculo. Temos um código de parecermos o mais bem possível, estarmos bem vestidas, bem maquilhadas. Devo isso às pessoas, porque somos um referencial. Mas isso não é o centro da minha existência. A única preocupação que eu tenho é estar adequada à minha idade.

Como é que se vê a sair de cena? Não sei... Depende muito da evolução da indústria. Mas acho que posso manter-me tranquilamente mais uns anos valentes. Ao primeiro sinal, sairei.

Mas precisa de palco? Não. Já tenho uma carreira paralela construída. Posso ficar aqui no gabinete, e ficarei muito feliz.

Quais são os seus escapes para este stresse que é estar em frente às câmaras todos os dias? Os mais banais possíveis. Preciso muito de silêncio, de me recolher no meu canto, estar em minha casa. Tenho uma necessidade de recuo. Leio, cozinho e durmo. Sou o ser mais desinteressante à face da terra.

Quando fala da sua vida e família, parece uma mulher estupidamente feliz... (gargalhada da Júlia) Tem uma carreira fantástica, um casamento que dura há décadas, três filhos crescidos. Costuma dar graças a Deus por esta sorte toda? Sim, sim. Eu sou uma pessoa alegre e otimista por natureza e sou claramente estupidamente feliz. Acho a tristeza e a autocomiseração um aborrecimento, uma perda de tempo.

Uma vez falou em 'incómoda alegria'. Sente que a felicidade incomoda os outros? Claro que sim. Os verdadeiros otimistas são aborrecidos para os outros. Estão sempre a borbulhar.

Como é que conheceu o seu marido, Rui Pêgo? A coisa é de filme. Eu era uma maçarica com 21 anos acabada de chegar à Rádio Renascença. Ele era uma espécie de lenda local, uma estrela rebelde. Certo dia, ele devia ter entrevistado o Mark Knopfler e não foi porque adormeceu. Não se falava de outra coisa. Entrei na sala onde ele estava com o Henrique Mendes, toda pimpona e muito vivaça, e o Henrique apresentou-nos. Ele olhou para mim com uma tromba e não me ligou nenhuma. Estúpido, então a deixa fica para mim? Então toma lá: "Com que então deixou o Mark Knopfler pendurado, ah?" Com aquele vozeirão disse-me: "O que é que tem que ver com isso?" Eu saí de fininho e disse que nunca mais na minha vida olhava para ele. Mal eu fujo, ele volta-se para o Henrique disse: "Vou casar com esta miúda!" E pronto, um ano depois estávamos casados.

E qual é o segredo para a longevidade de um casamento? Dá muito trabalho? Sim. Os casamentos são um produto da disponibilidade e investimento dos dois. Tenho com o meu marido a fórmula perfeita: depois da paixão, construímos a etapa seguinte. Temos um intenso e profundo prazer na companhia um do outro. Ele é de longe a pessoa no mundo com quem eu mais gosto de estar. Sendo que ele é o romântico e eu sou o pedregulho (aponta para um bouquet em cima da secretária). Aquelas flores foi ele que me deu, uma rosa por cada ano de aniversário do filho.

Aventurou-se pela escrita de um romance. Porquê? É para sentir que vai deixar qualquer coisa, já que a televisão é tão efémera, não fica nada? É a expressão de um desejo mais maturado meu. A televisão é muito rápida. É aquele tempo em que estamos ali, vamos embora e acabou. Um livro é o oposto, obriga a pensar, escolher palavras, maturar ideias. Mas achei sempre que não ia conseguir escrever.

Estudou literatura, devia endeusar o objeto livro. Completamente. Se há insegurança que senti na minha vida foi nessa fase. Recebi um convite da editora, pensei e assumi o compromisso. Mas quando comecei, escrevia e apagava. O meu marido foi muito importante para me fazer chegar ao fim. E a determinada altura já era um vício. Descobri que gosto muito de escrever.

Escolheu o tema do desamor, quando é uma mulher assumidamente feliz nessa área. São as histórias que eu oiço todos os dias, as histórias felizes não me interessam tanto. Mas mesmo depois do livro sair, tinha uma grande insegurança. Até que pessoas que eu prezo muito e que sabia que seriam profundamente honestas se aquilo fosse uma grande bosta, me disseram que gostaram. E agora já vou noutro e tenho uma história para um terceiro. Vou acabar os dias da minha vida nos buracos a fazer arqueologia e a escrever.

É uma mulher rica... (interrompe) Rica em que aspeto?

No monetário. Consta que veio ganhar 50 mil euros por mês, um valor astronómico para a maior parte das pessoas. Bom, sei negociar muito bem o meu valor, mas vivo no mercado português que não permite números desses. Isso são delírios... Eu ganho bem, vivo bem, com qualidade. Estou confortavelmente no topo da montanha. Mas ser rica é outra coisa.

E tem os luxos correspondentes a quem está confortavelmente no topo da montanha? Tipo o quê, explique lá?

Dar-se ao luxo de comprar coisas muito caras, ter pequenos caprichos? Vai ao supermercado, faz o jantar ou tem uma vida cheia de mordomias? Mas com certeza! (risos) Quem é que fazia? Tenho uma vida perfeitamente normal. Os meus luxos são comprar muitos livros, adoro arte... Sou capaz de perder a cabeça por uma peça de roupa extraordinária que acho muito bonita, mas como me visto e dispo todos os dias, a roupa e os sapatos já perderam um pouco o encanto. Mas tenho um número obsceno de roupa, sim. É quase indecoroso.

Bom, vamos acabar a conversa, não a torturamos mais. Ai graças a Deus que já estava com vergonha! Eu não tenho nada para dizer!!! (Olha para a minha mala enquanto nos despedimos e não perde a oportunidade) Depois eu é que sou rica, e ela é que vem com uma mala da Louis Vuitton, ah?