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MAIS DO QUE UM BLOG SOBRE TELEVISÃO

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José Fragoso: "O meu ciclo na RTP ainda não acabou"

José Fragoso: "O meu ciclo na RTP ainda não acabou"

Três anos depois de ter chegado à RTP, José Fragoso explica a estratégia que delineou para a televisão pública. Fala do orçamento das privadas, elogia o génio de Herman José, diz que o futebol não resolve os problemas do canal e acaba de vez com o rumor da sua saída para a TVI. "Estou para ficar", garante o director

Acabe lá com o suspense: vai ou não para a TVI?

(risos) É uma boa pergunta para começar. Não, eu não vou para a TVI. Estamos a viver uma situação normal em termos de mercado, com transferências, rumores e mudanças. Isso significa que o mercado tem valores e tem motivações que permitem aos profissionais trocar de projectos e abraçar novos desafios. No caso da RTP, nós temos uma operação estabilizada e, por isso, não há qualquer motivo para alterar o que quer que seja. Assisto a estes momentos e rumores com a curiosidade de quem está no meio, percebo as motivações dos canais comerciais, mas tenho a consciência de que o nosso trabalho é noutra pista e onde concorremos praticamente sozinhos.

Mas ao longo da sua vida profissional já trabalhou em empresas privadas. Portanto, facilmente se adaptaria a outras pistas...

Sim, claro. Mas isso não significa que queira mudar. Temos uma operação estabilizada na RTP, não há razões para mudar.

Não sente necessidade de um novo desafio, de um novo objectivo?

Eu já trabalhei em muitos meios. Em rádio, na imprensa, na televisão. Portanto, não tenho qualquer medo de mudar. O que acontece é que sinto que o meu trabalho na RTP, do meu ponto de vista, ainda não está acabado. O trabalho que eu tenho desenvolvido na área da programação da RTP1 nos últimos três anos deve continuar.

O ciclo não está concluído?

Não, não está. Aliás, como sabe, em televisão as nossas medidas só começam a dar resultado muito tempo depois. As nossas ideias têm de se materializar em programação e só muito tempo depois de determinada programação estar no ar é que os espectadores começam a perceber as mudanças.

Então, isso quer dizer que estes bons resultados da programação da RTP1 ainda não são mérito seu?

(risos) Estes já são. Muitas das opções que tomei há dois anos ou dois anos e meio, quer na ficção, quer nos documentários, quer no entretenimento, só agora começam a ser assimiladas pelos espectadores. Hoje, quando falo em séries ou em ficção, as pessoas já sabem a que me refiro. Quando eu digo que a RTP não faz novelas, as pessoas já não me perguntam se a RTP não vai ter ficção. Vai, e as pessoas sabem que nós fazemos ficção, quer nas séries, quer nos telefilmes, quer no apoio ao cinema português.

Portanto, o seu ciclo na RTP ainda não acabou?

Não. Sou muito bem tratado aqui na RTP. Tenho uma equipa fantástica a trabalhar comigo. Quando cheguei, há três anos, não trouxe ninguém. Integrei-me na equipa de programação que já existia. E, portanto, nesta fase diria que estou para ficar.

Nesta fase...

Sim, não posso falar por toda a vida (risos).

Mas assume que foi convidado pela TVI?

Nunca falo sobre sondagens nem convites. Ao longo da minha vida, já fui muitas vezes convidado e sondado.

Mas não desmente?

Não desminto nem confirmo. Nunca falo sobre isso.

A quem interessou a divulgação daquela notícia a meio de Dezembro, no blogue de Manuel Falcão, que ainda por cima já foi director desta casa?

Não faço a mínima ideia. Não acompanho o que se passa nos blogues.

Os últimos meses têm sido pródigos em novidades na televisão: são as audiências que revelam uma erosão da TVI, são programas que antigamente funcionavam que agora mostram vulnerabilidades, são as contratações sonantes que têm sido feitas. Acha que estamos no início de um novo ciclo televisivo?

Julgo que esse ciclo já começou há mais de um ano, mas não tem que ver com as movimentações de um canal para o outro. Esse ciclo começou com o aparecimento de mais uma plataforma de distribuição, a Meo, e pela forma como o próprio cabo se desenvolveu nos últimos anos a nível de conteúdos. Acresce a tudo isto a capacidade que hoje a Internet tem de distribuir, de entreter, de promover a televisão.

Já para não falar da TDT, que dentro de um ano, se todos os prazos forem cumpridos, será uma realidade em Portugal.

Exactamente, embora esse seja um fenómeno para o qual eu acho que os portugueses não estão minimamente sensibilizados. Mas o que é facto é que com estas alterações, e com as que se seguirão, nós temos um mercado diferente. E por isso digo que estamos num novo ciclo, que obriga os canais a pensar de forma diferente e os grupos a definir novas estratégias.

E o mercado está a saber acompanhar essas mudanças?

O mercado vai acompanhando. O nosso mercado de televisão é muito diferente do padrão europeu e até do de muitos países com os quais nos identificamos, como é o caso do Brasil. Nós falamos que o Brasil é o país das novelas, mas não tem nada que ver com o que nós fazemos cá. No Brasil há uma novela antes do jantar e uma depois do jantar. Não é como cá, onde há três ou quatro novelas depois do jantar. Na Europa toda, temos grelhas de programação verticais, iguais às da RTP. Num dia há debate, noutro dia há um filme, no dia seguinte há humor e por aí adiante. Não há três novelas todos os dias, sete dias por semana. Em Portugal, criámos um padrão que tem que ver com os hábitos de consumo que herdámos dos tempos em que havia só um canal e, por outro lado, pelo facto de não dobrarmos ficção estrangeira. Com isso condicionamos as nossas opções àquilo que se produz em Portugal.

Não é só isso. Programar horizontalmente sai muito mais barato...

Claro, obviamente. É muito mais barato produzir uma novela cujos episódios são gravados numa rua de Lisboa, onde não é preciso mudar nada, do que produzir uma série dos anos 40, em que é preciso arranjar carros de época, vestidos de época e tudo isso. Nós não só temos um padrão de ficção baseado num género único, com os riscos que isso pode ter, como temos um género de ficção baseado na novela de actualidade. A Globo opta muitas vezes por fazer grandes reconstituições, e com isso permitir uma identificação maior das pessoas com a história do seu país. Mas isso tem um custo: um episódio de ficção histórica pode custar quatro vezes aquilo que custa um episódio de novela.

Segunda-feira passam três anos desde que chegou à RTP1. O que é fica destes três anos? Qual é a sua marca?

Quando cheguei, conhecia o percurso da RTP. E achava que era importante que a estação generalista de serviço público mantivesse o caminho. A minha preocupação foi, sobretudo, perceber se as ideias que eu tinha para a RTP não colidiam com o caminho que estava feito. A RTP1 tinha começado a desenhar em 2001 e 2002 um caminho de recuperação a vários níveis, quer de natureza empresarial, com a concentração da televisão e da rádio no mesmo espaço, quer a nível da recuperação de público. Isso foi conseguido à custa de muitos profissionais que vieram para a RTP nesta última década. E houve muita gente que contribuiu para esta recuperação da estação. Há até alguns que entraram nesta última década e que, entretanto, já saíram, como é o caso de Nuno Santos, que esteve aqui cinco anos neste lugar. Quando cheguei a este cargo de muita responsabilidade, a minha preocupação foi não fazer tábua rasa do que tinha sido feito.

E, genericamente, estava de acordo com o caminho que estava a ser percorrido?

Sim, genericamente sim. Mas tive logo de tomar algumas decisões. Vamos falar de ficção. A ficção é hoje uma marca da RTP. Quando cheguei, havia uma telenovela produzida e que ainda não tinha sido estreada, a Vila Faia. E na altura disse logo que aquela seria a última novela produzida por nós porque o nosso caminho iria noutra direcção. Esse trabalho foi feito e hoje a RTP1 é um parceiro de cinema para produtores que produzem em Portugal, para realizadores, para guionistas e para actores. O Conta-me como Foi, por exemplo, já estava no ar. E nós mantivemo-lo, mas diversificámos as produções.

Uma outra imagem de marca é a RTP descentralizada, permanentemente na rua...

Sim, porque a RTP deve estar onde estão os portugueses. Todos os dias ouvimos dizer que somos nós que pagamos a RTP. E é verdade. A RTP é paga com o dinheiro de todos os portugueses que pagam impostos, portanto deve estar junto dos portugueses. Por isso, apostámos muito em estar na rua e a RTP tem demonstrado essa capacidade de sair de estúdio com grande frequência. Fazemos horas e horas de programação de proximidade, que fala de produtos portugueses, de gastronomia portuguesa, de tradições e eventos locais e regionais.

Isso não sai mais caro?

Não, não sai mais caro.

Há muita gente que diz que você é o programador que tem mais dinheiro para gastar, que a RTP é um poço sem fundo onde o dinheiro nunca falta, porque vem dos impostos...

(pausa) Não sei o dinheiro que os outros têm, por isso não vou entrar em comparações. O que sei é que os programas que vão para o ar estão dentro do orçamento. Não temos nada a esconder, até porque a RTP é auditada permanentemente e os nossos investimentos em programação estão nas nossas contas. Eu não conheço as contas dos outros, mas seguramente não sou o programador com mais dinheiro, nem de perto nem de longe. Basta olhar para os programas que vão para o ar. Qualquer português que saiba fazer contas perceberá isso.

Quem é o programador que tem mais dinheiro?

(pausa) Julgo que o canal líder tem tendência a gastar mais dinheiro. E do meu ponto de vista isso baterá com a realidade.

Então, por essa ordem de ideias, a TVI será a que gasta mais dinheiro, depois vem a RTP e a SIC é a que tem menos dinheiro para gastar. É isso?

Não sei. Tudo depende como os conteúdos são imputados ao orçamento. Os critérios não são os mesmos. Mas essa também não é a questão mais importante, até porque acho que os principais programadores, seja na TVI, na RTP ou na SIC, vivem todos com o mesmo tipo de condicionalismos.

Para este ano de 2011, tem mais ou menos dinheiro para gastar do que no ano anterior?

Tenho menos. Essa é a realidade com que nos confrontamos no País e, portanto, é com esse orçamento, que obriga a uma maior ginástica e a uma grande dose de imaginação, que vamos conseguir fazer uma programação em linha com o que a RTP tem oferecido aos seus espectadores.

Mantendo o conceito de proximidade?

Claro, isso para nós é decisivo. Os portugueses sabem que a RTP está presente não só nos grandes acontecimentos informativos, como também no seu próprio quotidiano, em programas como Praça da Alegria, Portugal no Coração, ou Portugal sem Fronteiras, ou em formatos pensados precisamente para o exterior, como é o caso do Programa das Festas, ao fim-de-semana, ou Verão Total, em Julho e Agosto.

A RTP1 tem grande dificuldade em penetrar no público mais jovem, tem um perfil de espectador muito envelhecido. Esse tipo de programação não cativa apenas o público mais envelhecido?

(pausa) Eu não gosto muito de falar em público envelhecido até porque nós temos hoje uma grande capacidade de resistência. A esperança de vida aumenta todos os dias...

... Isso é verdade, mas não responde à minha questão. O que eu estou a dizer é que a RTP1 trabalha maioritariamente para um público com mais de 55 anos. Esse é um problema que não é de hoje...

Não, mas nós temos uma segmentação. Temos conteúdos dirigidos a públicos mais jovens e outros a públicos com mais idade. Há 20 anos havia só um televisor em casa e o pai, a mãe, a avó, os netos, o cão e o periquito estavam todos em frente do televisor. Hoje, não se passa. Em média, cada casa tem três televisores. E há quem tenha quatro, cinco, sete em casa. Hoje é possível um pai estar a ver um conteúdo no quarto, a mãe na cozinha, uma filha na sala, o outro filho no ecrã de um computador. Essas segmentações todas existem. Agora, não é possível fazer milagres. Eles não existem. A RTP1 tem um perfil muito forte do ponto de vista informativo, com cerca de cinco, seis horas de informação na sua grelha diária. Ora, um canal com esse perfil é natural que tenha um público mais adulto. As crianças de 7 ou 8 anos têm uma alternativa complementar na RTP2, com uma programação que lhe é dirigida.

Quando diz que a RTP1 tem um público mais adulto, isso é um eufemismo. Num canal de forte componente informativa, o espectador médio é urbano, jovem adulto e adulto activo. Ora, não é esse o perfil da RTP...

A RTP não é um canal comercial e não ataca os chamados targets comerciais. A RTP, sendo um canal de serviço público, olha para dez milhões de portugueses, não olha só para aqueles que têm rentabilidade comercial. Os portugueses são todos iguais.

Mas isso não compromete a prazo o futuro da RTP, até num eventual quadro de privatização?

Não escondo que é uma questão que tem de ser trabalhada. Mas a RTP só faz sentido que exista enquanto televisão pública se conseguir produzir e exibir um conjunto de conteúdos que não são vistos, em geral, nos canais privados. Se de repente nós quiséssemos atacar targets comerciais, começaríamos a produzir três telenovelas. Ora isso, do meu ponto de vista, não faria qualquer sentido. O que é preciso é chegar a um maior número de espectadores com programas que os outros não têm. Eu com conteúdos como Príncipes do Nada, Salvador, Cuidado com a Língua, por exemplo, chego a cerca de 800 mil portugueses. Isso não é pouco. Eu tenho de trabalhar para esta gente que não vê novelas e que prefere ver séries de ficção como A República, ou Os Mistérios de Lisboa, que nós vamos lançar agora em 2011.

O seu antecessor no cargo [Nuno Santos], nos cinco anos que esteve na direcção de programas, nunca teve Liga de Futebol, mas a RTP ganhou o concurso por duas temporadas logo nos meses seguintes à sua chegada. O futebol é assim tão importante?

Bem, a RTP1 sempre teve futebol. Aliás, se formos comparar o número de jogos de futebol que a RTP1 tinha no passado, podemos tirar algumas conclusões. O futebol sempre fez parte da oferta do canal 1. Não tinha era a Liga. Mas tinha a Selecção, a Liga dos Campeões. O futebol não resolve nenhum problema de grelha. É evidente que é um conteúdo regular em termos de audiência, não o escondo, mas não é decisivo. E por isso, quando nós ganhámos a Liga, deixámos a Selecção, a Taça de Portugal e a Taça da Liga.

Mas isso não foi uma decisão sua, foi uma questão orçamental...

Sim, não podíamos ficar com o futebol todo. Agora perdemos a Liga para a TVI, mas voltámos a ter a Selecção. Portanto, devemos ter futebol, mas ele não resolve todos os problemas.

Mais estruturante é a aposta no humor, que, já o disse, será forte em 2011. Há projectos que estão em fase de produção, como já revelou. A minha pergunta é outra: a genialidade criativa de Herman José esgota-se num talk show?

O Herman precisava de estabilidade, de segurança e até de alguma reconciliação com a crítica e com os seus espectadores. Julgo que com o Herman 2010 e agora com o Herman 2011 isso foi alcançado. É um programa que no seu horário faz um trabalho importante para a oferta global da RTP1. O Herman fez alguns dos mais geniais momentos da televisão portuguesa. É importante que ele tenha encontrado na RTP o conforto para deixar mostrar de novo a sua genialidade. Tal como faz um talk show, o Herman pode fazer tudo. Estamos cá para avaliar a sua vontade criativa e perceber as necessidades da RTP. Eu sou, desde sempre, um admirador muito fiel da qualidade do Herman. E devo dizer-lhe que sinto esse brilhantismo todos os sábados à noite.

Fala sempre das audiências com distanciamento. Diga lá de verdade: não lhe dá nenhum gozo especial ficar à frente da SIC durante dois anos consecutivos?

(risos) Dá, claro que dá. O que eu digo é que a RTP1 não pode trabalhar para ser líder de audiências. Nós não podemos viver no mercado concorrencial da SIC e da TVI. Nós temos obrigações específicas que nos obrigam a ter um posicionamento diferente. Agora, claro que gosto quando os programas fazem boa audiência. Mas às vezes ter mais audiência é ter 10% de share. Ter um documentários com 200 ou 300 mil espectadores não é um mau resultado. É preciso pôr as coisas em perspectiva. Há conteúdos que nós exibimos, mesmo que sejam só para 200 ou 300 mil espectadores, que seriam desconhecidos se não fosse a RTP. Porque os outros não os fazem.