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MAIS DO QUE UM BLOG SOBRE TELEVISÃO

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Catarina Furtado: "Somos um país de invejosos"

Catarina Furtado: "Somos um país de invejosos"

Mãe, mulher, embaixadora da ONU, comunicadora. Catarina Furtado gosta desta diversidade. A apresentadora-boneca ficou para trás. No seu lugar está hoje uma mulher madura, que sabe do que fala.

Se lhe perguntarem o que faz na vida, como é que definiria?

(pausa) Mãe, em primeiro lugar.

É a sua principal ocupação?

É a minha prioridade, sem sombra de dúvidas. Mãe, mulher... E aqui mulher é tudo o que quer dizer a palavra mulher.

Mãe não é já a palavra mulher?

Não é só. Quantas são as mulheres que não têm filhos porque não querem ou não podem ter filhos. E são mulheres, lutam pelos seus direitos, sofrem as consequências da desigualdade no tratamento de géneros, têm de fazer esforços redobrados por serem mulheres.

É curioso que estes dez anos enquanto embaixadora da ONU lhe mudaram completamente o discurso. Em todas as oportunidades fala das desigualdades sociais...

Sim, é natural. Porque vi, porque vejo. Eu não falo do me dizem. Falo do que leio e, sobretudo, do que vejo no terreno. O olhar, o registar e o embate que isso provoca em mim, quer no coração quer no meu discurso, passam a ser a matéria da minha vida e do meu trabalho. É inevitável.

Voltemos lá à sua escala de prioridades. Mãe, mulher...

(risos) Mãe, mulher... embaixadora das Nações Unidas e comunicadora. E o comunicadora tem ramificações: apresentadora, actriz e por aí fora. Eu adoro essas ramificações e trabalho muito para que elas existam. E há ainda uma terceira ramificação, sem querer de todo ser pretensiosa, que é o fazer documentários. É uma coisa que comecei a fazer há quatro anos e que quero muito continuar a fazer. Sou uma contadora de histórias. Das histórias que vejo, sempre com um cariz humanitário. Não lhe chamo jornalismo, porque eu não sou jornalista, apesar de ter feito o curso do Cenjor. Mas não pratico. De qualquer forma, estes documentários têm de ser feitos com o mesmo rigor do que o de uma peça jornalística.

Portanto, na sua escala de prioridades, a televisão está em quarto lugar...

(risos) Sim, mas só porque o Nuno me pediu uma escala de prioridades. Pediu-me e eu tive de pensar, porque, de facto, não tenho escala de prioridades. Eu quero fazer tudo, não quero parar. Gosto que a minha vida tenha essa diversidade.

Mas reconhece que a Catarina Furtado embaixadora da ONU só é possível porque há a Catarina Furtado, apresentadora de televisão...

Sim, claro. Os embaixadores da boa-vontade são figuras mediáticas, muito conhecidas, mas com uma evidente e pública preocupação com as questões sociais do mundo. Eu tenho de ser conhecida e tenho de ter uma voz que fala alto e que, quando fala, a imprensa, na sua generalidade, vem atrás. E foi para isso que os embaixadores da ONU foram inventados, para trabalhar de perto com a imprensa, para tornar públicas as dificuldades e os projectos de carácter social. Portanto, deixemo-nos de ilusões: é evidente que se eu não fosse conhecida pelo meu trabalho em televisão, não estaria aqui.

Essa questão das preocupações sociais hoje está na moda...

(interrompe)... quem me dera, quem me dera!

"Há gente que se aproveita das questões sociais para se promover"

Não, mas digo isto no sentido de que parece ser politicamente correcto que qualquer figura pública fale das desigualdades sociais, dos pobrezinhos, dos desfavorecidos. Não há uma grande dose de hipocrisia neste discurso?

Se me está a perguntar se eu acho que há gente que se aproveita desse discurso para se promover, eu digo-lhe que sim (risos). É evidente que há. Mas eu mantenho a minha: se a questão das preocupações sociais estiver na moda, eu fico hipercontente. E mesmo que haja alguém que se aproveite dessas mensagens, apesar de tudo, ainda bem. Há outras coisas que estão na moda e que são, seguramente, muito mais prejudiciais para o Mundo.

E essa hipocrisia também não é prejudicial?

Sim, porque se pode estar a enganar o público. Mas se essa pessoa que está a usufruir da causa, seja ela qual for, estiver ao mesmo tempo a divulgá-la, não me importo. Embora, eu acredito, a inveja, a hipocrisia, a maldade, a prazo, criam doenças.

E normalmente, o discurso dessas figuras públicas contempla também a frase típica: "desde pequenina que me preocupo muito com estas questões". No seu caso, quanto é que se sentiu desperta para estas realidades?

Conscientemente não sou capaz de lhe dizer. Mas eu tenho um histórico que me empurrou para estas questões. E ele é simples. A minha mãe, como é público, trabalhou durante muitos anos na Crinabel, que é uma escola de ensino especial. O meu pai, como é notório, fez imensas reportagens pelo mundo e, nomeadamente, em países de expressão portuguesa e trazia-me sempre histórias de crianças que não tinham a mesma sorte do que eu.

A Catarina cresceu nesse ambiente?

Sim, foi uma coisa natural. Quando eu tinha, nove, dez anos, comecei a fazer voluntariado na Crinabel e tomava conta das crianças (algumas delas bem mais velhas do que eu...) nas colónias de férias durante o Verão. Parte das minhas férias de Verão era passada na Costa de Caparica a tomar conta de crianças com necessidades especiais.

Isso marcou-a?

Muito. Lembro-me perfeitamente de um episódio que se passou na praia e que fez com que eu, mesmo nessa idade, sentisse muito a questão da diferença. Eu tomava conta de um rapaz com trissomia 21 - e uma das características da trissomia 21 é tornar a pessoa muito expansiva e até carinhosa - que se afastou de mim na areia molhada, começou a andar e foi cumprimentar uma senhora que estava deitada na areia, na sua toalha. Eu fui atrás dele, para que ele não incomodasse ninguém, e quando cheguei à toalha, a senhora apontou para ele e disse-me: "Tire-me isto daqui". Isto! A senhora referiu-se a uma pessoa como "isto". E eu achei aquilo na altura bizarro. Porque cresci no meio daqueles miúdos: fazia as festas de Natal com eles, fazia teatro com eles, dançava com eles. Aquilo foi um choque para mim. E lembro-me que cuspi na senhora e virei-lhe costas (risos).

Nunca mais se esqueceu disso...

Não. Aquilo marcou-me muito. E pela vida fora sempre me fez muita confusão as pessoas que olhavam para as diferenças como diferenças e não como nuances. Por exemplo, a questão da desigualdade social faz-me imensa confusão. Nós não somos pobres, nós estamos pobres. Ninguém tem culpa. Por isso, faz-me imensa confusão quando desviamos o olhar à pobreza dos outros. Esse preconceito não faz sentido.

"Não faço ideia do que as pessoas pensam de mim"

A Catarina é das figuras públicas mais fotografadas, mais comentadas, mais adjectivadas na imprensa. Que ideia é que tem da ideia que os portugueses têm de si?

(longa pausa) Isso é uma excelente pergunta. Havia uma altura em que eu fazia a mim própria essa pergunta. E há dez anos, mais ou menos, deixei de fazer essa pergunta.

Porque deixou de se preocupar com isso?

Não sei (pausa). Não foi consciente. Está a fazer-me perguntas do domínio do inconsciente e isso é muito interessante porque me faz pensar (pausa). Não faço ideia do que as pessoas pensam. Para mim, é mais importante ter os meus propósitos, defini-los e concretizá-los. Esse é o meu caminho, onde acho que posso ser útil, onde me revejo, onde posso ser empreendedora.

Nos anos 90, a Catarina era uma miúda encantadora da televisão que levava o sonho e a fantasia a casa dos portugueses. Hoje já não há essa imagem da Catarina.

Pois, não consigo responder a isso. O que eu acho que as pessoas pensam de mim é que sou uma pessoa coerente, com princípios, com valores sérios. Tudo o resto é mais folclore. Se sou vaidosa, gorda, boa apresentadora, boa actriz, isso já é secundário.

Não receia que as pessoas olhem para si e digam "olha, lá está a Catarina a fazer de boazinha..."?

Nada. Não receio nada. Não me preocupo absolutamente nada com isso. Se eu me preocupasse com isso, não agia, não criava, não pensava em coisas, não punha projectos a andar. Eu não fui pioneira de nada: há muita gente que faz trabalho sério nesta área há muitos anos. Ainda agora na cimeira do Milénio, estive com gente fantástica que faz isto há muitos anos: o Bob Geldof, o Bono, o Bill Gates. Gente que faz outras coisas e que, genuinamente, se preocupa com as questões sociais. E atenção, não me estou a comparar com eles. Mas estive a conversar com eles e bebi tudo o que eles me contaram. E se eu estivesse a fazer de boazinha, não seria há dez anos (risos). A seriedade vê-se com a peneira ao longo do tempo. O que as pessoas pensam é-me absolutamente indiferente. Estou a ser o mais sincera possível. O que eu quero é criar, inventar coisas novas, mobilizar.

O Príncipes do Nada ou o Dar Vida Sem Morrer resultam?

Resultam? Claro que resultam. Essa é uma das coisas que eu quero fazer. Quero pensar em algo que mostre a quantidade de gente disponível para ajudar. É impressionante.

Há pouco, quando estávamos na sessão fotográfica, falou-me da sua agenda ocupadíssima. Eu sou uma vítima dela, porque esta entrevista teve de ser adiada algumas vezes...

(risos) É verdade, é verdade. Para lá de promover as causas junto da imprensa e da sociedade civil, um embaixador tem de trabalhar com os governos. E é isso que eu faço. Partilho as minhas experiências no terreno com quem pode fazer a diferença. Um exemplo: cada vez que vou fazer uma reportagem a Moçambique ou à Guiné Bissau, tenho parte dos dias ocupados para ter reuniões com o ministro da Saúde, com o ministro da Juventude, às vezes com o primeiro-ministro, às vezes com o Presidente da República.

Nunca despe, ao longo do dia, a capa de embaixadora?

Não, não consigo. A primeira vez que fui a um país e que vi uma mulher morrer, a primeira vez que vi uma criança morrer... isso não se esquece. Esse foi o momento de viragem. Não consigo despir essa capa. Isto sou eu.

"Continuo a ter medo de morrer"

Ver essas mortes tornou-a mais forte ou com mais medos?

Não, tornou-me uma mulher muito mais forte.

Eu sei que a Catarina tinha um enorme medo de morrer...

(pausa) E continuo a ter (baixa os olhos). Tenho convivido com a morte muito proximamente. Muito, muito, muito (de olhos postos no chão).

Isso não mudou nada em si?

Mudou muito, claro, mas não mudou o meu respeito pela morte. Não está atenuada ainda essa questão.

Diz ainda porque acredita que um dia vai superar?

Acho que sim, acho que um dia vai atenuar o meu medo em relação à morte. Pelo menos em relação a mim, porque em relação aos que amo vai continuar sempre. Isso não vou atenuar nunca. O que acontece é que tenho muito mais noção da urgência do tempo. Há uns anos todos nós achávamos que éramos muito novos. Hoje, não. Tenho uma consciência grande da urgência de agarrar o tempo. Por isso é que eu nunca descanso. Porque essas meninas e essas mulheres continuam a morrer.

Os seus filhos têm três e quatro anos. Já lhe fazem perguntas?

Não. Quer dizer, fazem aquelas perguntas normais, mas não muito mais.

Como é que vai explicar a morte aos seus filhos?

(pausa) Não vou. Hei-de explicar-lhes um dia. Eles fazem aquelas perguntas básicas quando estamos a juntar brinquedos, quando eu lhes digo que eles têm brinquedos a mais e que há muita gente que não tem. Sou uma mãe muito intransigente. Sou mesmo. Quando eles deixam comida no prato, por exemplo. Elas muitas vezes até me dizem "já sei, mãe, há muitos meninos sem comer e eu tenho de comer a massa toda". Às vezes, eu própria pergunto-me se será eficaz ser tão intransigente.

Quando eles a vêem na televisão, ou nos jornais e nas revistas, com crianças ao colo, perguntam?

Sim, perguntam sempre quem é este menino e onde é que está a mãe dele e se tem brinquedos. E eu digo-lhes sempre que há meninos sem a sorte que eles têm.

O seu marido [João Reis, actor] é parceiro nessa intransigência?

(pausa) Sim, claro. Embora às vezes eu me sinta um bocadinho solitária. Quando vou para estas viagens, vou sempre com duas pessoas, o Ricardo Freitas, que é o produtor/realizador de todos os meus documentários, e o repórter de imagem Hugo Gonçalves', que tem sido sempre o mesmo. E é muito importante que assim seja. Há coisas que se vêem, há cumplicidades que se criam. Em Banda Aceh, na Indonésia, estávamos ali chocados a ver aquela miséria, e eu virei-me para eles, baixinho, e disse-lhes "tenho uma coisa para vos contar, estou grávida". Eles ficaram cheios de medo, coitadinhos, queriam logo sair dali (risos). Eu só consigo conversar sobre estas coisas que vejo nas viagens com o Ricardo.

Nem com o João?

Nem com o João. O Ricardo é o único que, de facto, presenciou estas realidades. Porque eu chego a casa e entupo a família e o João com estas histórias. E há outras que são muito difíceis de contar. Mas eu tento, porque preciso de partilhar.

Chora?

(pausa) Ah, isso, não vale a pena dizer.

Porquê? Chorar é perfeitamente normal. Deve ser um choque muito grande...

Sim, é normal. É evidente que choro (sorriso tímido). É impossível não chorar. Choro lá, nos sítios onde estou, mas nunca à frente das pessoas. E choro quando chego a Lisboa.

Quando há bocadinho lhe perguntava se não despia a capa era no sentido de saber se não tem momentos light na sua vida...

Há sim, claro. Momentos light, fúteis [o telemóvel de Catarina toca. Recebe uma mensagem e lê-a. O responsável de uma empresa portuguesa comunica-lhe que vai doar 100 mil euros em roupas e calçado para que Catarina Furtado possa distribuir pelos países mais necessitados. A mensagem deixa-a feliz. "Está a ver? O que é que eu posso querer mais?", diz-me, emocionada]. E agora perdi-me... (risos)

Estava a perguntar-lhe se tinha momentos de descompressão, de futilidade. Não tem necessidade de banhos de loja, como muitas mulheres?

(risos) Claro que tenho isso tudo. E sou coquete. E gosto de sapatos, gosto de vestidinhos e gosto de estar amorosa. Tenho isso tudo. A minha vida não se tornou um exercício denso e chato. É tudo perfeitamente conciliável.

Qual foi a última vez que foi ao cinema?

Foi há 15 dias, mais ou menos, ver um filme francês, Les Regrets [Arrependimentos].

Não foi muito light...

(risos) Não, mas era interessante. Mas a minha vida não se tornou uma coisa cinzenta. Uma coisa é a pessoa acreditar em algumas doutrinas e nortear-se por princípios, outra coisa é ir para freira. Eu não fui. Posso perfeitamente com o meu baton, com os meus sapatos de salto alto e com a minha mala que adoro, lutar por pessoas desfavorecidas. Mas a minha vida é um bocadinho uma loucura. Tanto estou assim aperaltada para ir apresentar uma gala, como no dia seguinte visto uns jeans e preparo-me para embarcar para a Guiné-Bissau.

"Não cozinho, mas eu é que cuido da casa"

Tem tempo para cozinhar para os seus filhos?

Não, isso não porque não gosto de cozinhar.

O João é que cozinha lá em casa?

Sim, sim. É maravilhoso. E ainda por cima é um óptimo cozinheiro. Cozinha várias coisas, várias tendências. Mas isso não tem a ver com trabalho, é uma opção. Ele cozinha, eu cuido da casa. Sou muito arrumadinha, gosto de preparar a roupinha dos meus filhos para a semana inteira. Ao domingo, tenho as roupas todas estipuladas, à segunda, à terça, à quarta... As luvas a condizer com os collants. Sou superorganizada nisso. E tenho a ajuda maravilhosa do João, que é uma pessoa fantástica. Um pai superpresente e adora a casa e a família.

Falemos de televisão. O seu 2010 ficou marcado pelo papel de protagonista em Cidade Despida, uma série que foi nomeada no festival de Monte Carlo e onde a própria Catarina foi nomeada como melhor actriz. Ainda assim, o seu desempenho como actriz continua a ser criticado. Essas críticas irritam-na?

Hoje em dia, estou obviamente muito mais segura e muito mais confiante. Sei muito melhor as minhas qualidades e as minhas limitações. Não lhe escondo que ter sido nomeada para melhor actriz no Festival de Monte Carlo me deu um grande gozo, um grande orgulho. Mas hoje sou muito menos insegura do que era. Hoje aceito os desafios muito mais facilmente. Quando me apresentaram a Cidade Despida, percebi que a minha personagem era dificílima, porque ela fica louca. Era uma personagem que exigia de mim uma transformação física e com uma grande densidade psicológica. A minha preocupação era apenas perceber se eu era, ou não capaz de fazer aquilo. Depois, dediquei-me à exaustão. Sou muito disciplinada e muito obsessiva e acredito em duas ou três pessoas e não acredito em mais ninguém. Depois, se o produto final é bom ou mau, é muito subjectivo. Os bons actores não vão sempre bem e os maus actores não vão sempre mal.

Mas sente-se uma boa actriz?

Isso para mim é completamente secundário. O que me interessa é fazer um bom trabalho. Há quem ache que sou má actriz, há quem ache que sou boa actriz. O júri do Festival de Monte Carlo, pelos vistos, achou que sou boa actriz, porque me nomeou para a categoria de melhor actriz do ano. Mas em Portugal escreve-se muito sobre mim. Quem escreve sobre mim tem sempre à partida um preconceito sobre mim.

Acredita nisso?

Acredito, claro. Então em relação à Cidade Despida, acho mesmo. Não creio que haja muito a dizer sobre a qualidade da série e sobre o meu trabalho. E mesmo assim...

Porque é que acha que há esse preconceito em relação a si?

Porque a minha gestão de carreira, que não foi premeditada mas sim intuitiva, foi decidida por mim e por mais ninguém. Eu sou assim. Raramente saio, eu não apareço nas revistas em festas, apareço só com o meu trabalho. Não apareço em produções na praia com o meu marido. Não faço sessões com os meus filhos. Não abro as portas da minha casa. Nunca tive férias pagas por ninguém. Quando posso pagar, vou. Se não posso pagar, não vou. Sempre fui assim. Não é de agora. As pessoas já sabem que eu sou assim. É a minha coerência. Não quero.

E admite que possa pagar por isso?

Admito que facilmente essa coerência, esta minha forma de pensar pode ser confundida com arrogância. Há muita gente que acha que eu sou arrogante. Mas isto não é arrogância, é a minha defesa pessoal.

Somos um país de invejosos?

Sim, somos. Há muita gente invejosa (risos). Mas temos outras pessoas fantásticas. O grande desafio é no nosso caminho, cada um na sua área, encontrar as pessoas certas para trabalhar.

Mas sente na pele essa inveja?

Sinto às vezes, mas acho que tenho grandes protecções. Só posso ter. Continuo com forças, com imensas energias, com vontade de fazer. Mas às vezes sinto que sim, quando se escreve alguma coisa que é meramente para picar. A inveja não é exclusiva de Portugal. A feira das vaidades existe em todo o lado e até mais forte noutros países. Nós somos mais pequeninos. A nossa inveja é mais carregada. Temos mais dificuldade em arregaçar as mangas e transformar essas invejas em capacidade de trabalho.

"Voltava a apresentar a Operação Triunfo"

Continua a divertir-se a fazer entretenimento puro é a factura que tem a pagar para que a RTP a deixe fazer documentários?

(risos) Não, não. Divirto-me muito. A Cidade Despida foi o maior presente que a RTP me deu em 2010. E diverti-me muito com o Dá-me Música. Imenso. Eu tenho uma espécie de um chip que muda completamente. Eu posso estar a morrer de cansaço, mas chego aos palcos, vejo luzes, e algo em mim dispara. Sou assim. Brinco, danço, canto com algum pudor, divirto-me imenso. Estudo os guiões do Dá-me Música com o mesmo rigor que estudo um dossier para fazer um documentário.

Mas o entretenimento só já não lhe chega?

(pausa) Se fizesse só entretenimento, ficaria com um buraco de frustração gigante. Como faço as duas coisas, não fico nada. E às vezes até utilizo esses programas de grande entretenimento para passar mensagens. O projecto Dar Vida Sem Morrer nasceu de um Dança Comigo.

O que é que vê na televisão?

Vejo notícias. Pico entre vários canais.

Tem uma visão crítica sobre o jornalismo que se faz na televisão?

Tenho, mas é a minha. Qual é o interesse de eu, que tenho o meu trabalho, estar a comentar o trabalho dos outros? Não, eu sou muito respeitadora. Cada um faz o seu trabalho.

E entretenimento, vê?

Vejo séries e pico sempre alguns programas. Vou picando a Operação Triunfo, o Ídolos. Vejo o lado de trás, a produção. Gosto de ver como estão as produtoras a trabalhar.

Ainda se via a apresentar uma OT ou um Ídolos?

O Ídolos não sei se acharia tanta graça, mas a OT sim, claro, voltava a apresentar. Não gosto tanto daquele formato do Ídolos, não gosto de ver as pessoas a tratar mal os outros, mas, enfim, é um formato valioso, muito bem produzido, muito bem apresentado.

A Casa dos Segredos não apresentaria de certeza...

(risos) Não passa por ali a minha prestação televisiva. E faria seguramente pior do que a Júlia faz. Mas já vi o programa, até porque tenho lá amigos a trabalhar.