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Tudo-Sobre-A-TV

MAIS DO QUE UM BLOG SOBRE TELEVISÃO

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Júlia Pinheiro. "Grande parte dos programas que faço não são do meu interesse pessoal"

Diz que se pudesse fazia um programa de arqueologia e acha-se desinteressante para entrar "Casa dos Segredos". A directora da TVI fala das suas opções e de como fugiu a uma carreira na informação.
Deu o primeiro beijo numa escavação arqueológica e tinha como sonho estudar História. A directora de conteúdos da TVI fez o primeiro programa na RTP aos 19 anos e só voltou à televisão quando a SIC começou em 1992, com “Praça Pública”

São 19 horas quando Júlia Pinheiro começa a conversar com o i, sempre de telemóvel na mão. A apresentadora vai acelerar a nossa conversa porque não falta ao jantar com o marido e os três filhos. Esperámos pela directora de conteúdos da TVI numa sala de reuniões da estação repleta de cartazes dos programas que marcaram a história do canal. "O jacuzzi das celebridades", ou melhor, "Quinta das Celebridades", o "Big Brother Famosos", agora só falta colar na parede a "Casa dos Segredos", líder de audiências que já conseguiu 57,8% de quota. Ouve-se a voz de Júlia, de 48 anos, nos corredores, antes do barulho dos saltos altos. A filha única que sonhava ser arqueóloga fala abertamente da carreira, do sonho de ser repórter de guerra, dos amores e do quanto se diverte a fazer directos.

Juntou a um programa diário, "Tardes da Júlia", a "Casa dos Segredos" e ainda é directora de conteúdos da TVI. Não é cansativo ?
Trabalho desde os 19 anos e não me lembro de ter tido só uma coisa para fazer. Acho até que ficava mal disposta e me iam surgir borbulhas. O que me cansa é gastar o tempo inutilmente em tarefas que são uma chatice. Por exemplo, reuniões. Somos um país de reuniões. Há umas fantásticas, outras um verdadeiro pincel. O momento simples de fazer o programa não me cansa nada.
Parece estar sempre a divertir-se. Numa das galas até surfava.
Aquilo diverte-me. Às vezes perguntam-me porque sou bem sucedida, a resposta é: porque não estou em esforço. Quando me atirei para o chão, foi porque me apeteceu. Sou o terror dos realizadores. Temos marcações para as filmagens, mas eu posso ir para qualquer lado. É isso que adoro nos directos.
Não usa teleponto. Porquê?
Por que é uma chatice. Era o que mais faltava. A forma como se lê não é a mesma como se fala. Eu sou um bicho deste artifício: de falar em directo, sem uma única linha escrita. Tenho uns cartões para saber o alinhamento e mais nada. E se me divertir aquilo corre bem.
E se isso não acontecer?
Não corre bem. Mas mal, mal só me correram dois. Um programa que se chamava "Só para Inteligentes" - só o nome assusta - e um outro "Cantigas de Maldizer", os dois na SIC.

Por que é que correram mal?
Não eram bons programas. Estavam mal enjorcados. Tive audiência, mas estava em esforço. Grande parte dos programas que faço, se não a totalidade, não seriam os que eu escolheria. Os programas que quereria fazer são uma seca. Adoro arqueologia, mas acha que vou fazer um programa sobre pedras e escavações? A dona Jaquina ia perguntar: "Olha Zé, a dona Júlia dentro de um buraco?" É uma questão profissional. Se a empresa à qual pertenço precisa que os programas sejam executados, faço com o maior prazer. Mas não são os do meu interesse pessoal.
E consegue fazer?
Na maior.
Como directora de Conteúdos da TVI o que viu na "Casa dos Segredos"?
É o formato internacional mais interessante na televisão. Tem uma componente de voyeur, a base do reality show, que é o princípio da vizinha, o lado mais pequenino de nós, mas que é intrinsecamente humano. Em cima disto, puseram uma coisa ainda mais interessante, o jogo, com uma certa manipulação psicológica. É uma experiência sociológica interessantíssima. Correu-nos muito bem o casting, ao contrário do que as pessoas dizem.
Mas há muitas críticas.
Como arranjámos um grupo de pessoas com um histórico, a maior parte deles, problemático, há muitos preconceitos. Mas ter um segredo tipo "tenho três gatos cor-de-rosa" não é propriamente um segredo. Já o segredo "participei num assalto" ou "fui acompanhante de luxo" é. Mas nenhum tem cadastro criminal ou foi condenado, desse ponto de vista fomos cuidadosos. Como tiveram uma experiência mais rica, de tensão, têm conversas mais interessantes. Já discutiram a pena de morte ou a SIDA. A facilidade com que rotulamos isto de pornografia mental, como já li, é proviciano e preconceituoso. Há uma coisa ridícula em Portugal: se é feito lá fora é uma coisa extraordinária, se é feito por nós é uma caca.
É um reality show familiar?
Sim. Toda a família pode ver. Não há um único palavrão, porque metemos os piis, jamais mostrariamos cenas de sexo explícito ou um nu frontal. Nada vai para o ar sem cuidado.
E a emissão 24 horas por dia, no MEO?
Isso é outra coisa. Mas nas nossas responsabilidades com o alvará de um bem público como canal de TV estamos defendidos. Não há nada que não possa ser visto em família.
Era capaz de participar no programa?
Não. Primeiro é preciso ter veia de jogador, coisa que não tenho. Gosto de jogos de cartas e escondidas, mas acho este jogo complicado. Depois, as pessoas que entram nisto têm de ter uma vocação para o acting. Sou incapaz de manter isso durante tanto tempo. Além disso, sou muito desinteressante, não tenho nada a dizer ao mundo. Num sítio daqueles comia, dormia e lia. Leio muito, no mínimo cinco livros ao mesmo tempo. Sabe, quero é estar quieta. Preciso muito de silêncios. Há 18 anos que tenho pessoas a falarem-me ao ouvido [da regi de TV].
Costuma ligar à sua mãe a dizer: "Convidaram-me para este projecto"? Como é que ela reagiu à Casa dos Segredos?
Geralmente é ao contrário. Alguém lhe diz ou ela vê numa revista e vem perguntar-me. É muito crítica, costuma dizer: "É mais uma daquelas patetadas."
Ela vê a "Casa dos Segredos"?
Acho que sim. Deve ver uns dez minutos para perceber se eu não estou doida de todo, como está o meu vestido e o cabelo e depois vai à vida dela.
Gosta desse lado de glamour nos programas de televisão?
Muitas colegas construíram a sua imagem de comunicadora com base na imagem física, não acho nada mal. Mas eu, quer dizer, não sou propriamente uma das raparigas mais bonitas que o mundo já produziu... Sou uma senhora de idade, tenho quase 50 anos. Gosto de roupa, das coisas da moda, mas estou numa fase da vida que quero tapar e não mostrar. Estou na defensiva. Há dias em que me visto e dispo tantas vezes, graças ao programa diário, que a roupa é um código quase militar. Tenho sorte de ter coisas bonitas de estilistas internacionais, mas chega a uma altura em que só quero despir o Valentino, Donna Karan, Gucci e meter-me no pijama.
É uma das apresentadores mais famosas de Portugal...
Acho que sim.
... as pessoas costumam abordá-la muito na rua?
Sim. A melhor parte é quando me dizem: "É muito menos feia do que na televisão e muito mais magra." Na televisão envelheço, é uma questão de telegenia. Encontrei uma vez uma senhora que falava de mim ao marido como se não estivesse lá: "É rija", gritava. Na altura da "Noite da Má Língua" é que foi mais complicado. Entrava num restaurante e metade das pessoas não me falava. Ainda por cima, tinha feito assessoria de imprensa ao ministro do comércio, Faria de Oliveira, na primeira maioria do Professor Cavaco, por isso conhecia toda a gente da política. E naquele programa dessacralizámos os políticos.
Como era fazer a "Noite da Má Língua"?
Hilariante. A fase com o [Rui] Zink, Miguel Esteves Cardoso e a [Rita] Blanco foi tão louca. Tínhamos carta branca. Perguntava ao Emídio [Rangel]: "Então, posso dizer mal do Papa?" Ele respondia que sim. Chegamos até a gozar com o próprio Emídio. Há um episódio em que ele e a Felipa Garnel vão atrás de um jornalista que fazia umas crónicas assassinas no "Semanário", em que atacava sempre o Emídio. Eles deram-lhe um enxerto de tareia, merecido, aliás. Foi uma escandaleira. Pensávamos, é o nosso chefe, mas não podemos passar ao lado disto. Então recriámos a cena. Andávamos numa carrinha e dávamos um enxerto de porrada a um tipo. O Emídio foi elegantíssimo e não disse nada.
Quando entrou na licenciatura de Línguas e literaturas modernas imaginava estar onde está hoje?
Não queria de todo ser professora de inglês ou alemão. Fui para lá porque não pude ser arqueóloga. A minha mãezinha, que é muito pragmática, disse: "Arqueologia? Fazes isso lá para frente, escolhe algo mais prático." No ano seguinte a entrar, comecei a trabalhar na área. Estive dois anos na RDP sem ganhar um tostão. Mas foi uma óptima escola. Estava sentada ao pé do Emídio Rangel, na altura um jornalista muito desalinhado, e do Fernando Alves. Foram tempos engraçados.
Mas queria ser arqueóloga?
Foi uma coisa que meti na cabeça aos 10 anos. Devo ter lido uma biografia da Cleópatra e achei que era isso que ia fazer. Onde morava, que eu sou uma menina da margem sul, existia um núcleo de arqueologia amadora. Mal entrei no liceu, fui para lá. Com 12 e 13 anos já participava em escavações. Aliás o meu primeiro beijo com o primeiro namorado, sabe onde foi? Dentro de um buraco.
Como aparece o jornalismo?
Em miúda, vi a visita do Papa João Paulo II a Lisboa e fiquei fascinada com os jornalistas que estavam ali ao lado. Embora não fossem a notícia, faziam parte dela.
Começou a trabalhar com 19 anos, como reagiram os seus pais?
Muito mal, estavam apreensivos. No segundo ano em que estava na RDP, começaram à procura de pessoas para a Renascença. Eu ia ser jornalista, como a a Christiane Amanpour [da CNN], não ia ser palhaça do entretenimento, mas as vagas eram para locutoras. No turno da noite, não podia haver mulheres jornalistas. Na época em que só ia para rádio quem tinha uma voz extraordinária, eu, que tenho uma voz desgraçada, de apito, pensei "isto vai correr tão mal". Mas vá-se lá saber porque, o director na época, o Henrique Mendes, achou-me graça. O meu pai é que não, porque chegava a casa às quatro da manhã. Foi um terramoto familiar, mas acabaram por perceber.
Como foi o seu primeiro programa?
Chamava-se "Sessão da Meia-Noite". [Baixa o tom de voz] Era muito mau... Eu era completamente maçarica. Eu, o José Relvas e o Luís Loureiro apresentávamos um programa da meia-noite às duas da manhã. Andávamos bêbados de felicidade. Mas devia ser muito má. Todos os dias perguntava ao Henrique Mendes se já tinha ouvido e a resposta era sempre a mesma: "A essa hora não. Mas já pedi as gravações." Devia ser tão mau que ele nem tinha coragem de o dizer.
É na rádio que conhece o seu marido, Rui Pêgo.
Foi tipo filme. Um dia chego à Renanscença, e o Henrique [Mendes], apresenta-nos. Ele era uma estrela da rádio, um divulgador, e eu sabia que naquele dia ele devia ter entrevistado o Mark Knopfler, dos Dire Straits, mas adormeceu. Então fiz o número: "Com que então ficou a dormir e deixou o Mark Knopfler pendurado?" Ele olhou para mim e disse: "E o que é que tem a ver com isso?" Sai porta fora e diz para o Henrique: "Vou me casar com esta miúda." Se não fosse o Henrique a confirmar esta história, diria que era ele a dar-me a volta. Eu tinha 21 e ele 28, já estava separado mas ainda não divorciado. Nunca mais olhei para ele. Até que ele começou a fazer corte... Já lá vão 26 anos. Tenho um casamento extraordinário, deve-se em grande parte ao meu marido. É um romântico, eu sou um pedragulho. Temos um imenso prazer na companhia um do outro.
Na adolescência, não era romântica?
Não sei seduzir, porque fui sempre seduzida. A única vez que tentei, demorou tanto tempo que ele adormeceu. Nunca sofri aquela coisa de amores, não sou romântica. Na adolescência era muito popular, "the queen of the party". Durante o dia farra, à noite não. Só fui a uma discoteca aos 18 anos. Eram festas de garagem e muitos namorados. Graças a Deus.
Sim?
Ah! Bué. Faz parte. Namorei o que tinha de namorar.
Quando se viu na televisão pela primeira vez, como se sentiu?
Nos primeiros tempos ficava tão aflita que achava que me ia cair o traseiro. Cheguei à TV muito tarde. Tive uma incursão breve aos 19 anos, num programa de música para jovens, mas foi um toca e foge. Depois andei na rádio e só aos 30 anos, já mãe de uma criança, é que entro na TV, quando apareceu a SIC. Fiz o curso de pivôs e o Emídio escolhe-me a mim e ao Nuno Santos para fazer o "Praça Pública".
Há um momento em que decide conscientemente deixar o jornalismo?
Sonhei em ser pivô. Mas a dada altura percebi que a redacção da SIC era muito masculina, que havia uma série de colegas minhas com grande potencial e que eu tinha o estigma de ter feito entretenimento na rádio. Depois constatei que ser pivô não era muito excitante. A rotina é cansativa. Além disso, tenho um histrionismo que os anos vieram acentuar, por isso manter-me quieta ali seria problemático. É uma coisa meio formal, mais contida, ainda bem que deixei.
O seu filho é agora seu colega [Rui Pêgo, apresentador do "Curto Circuito", na SIC Radical]?
E teve exactamente o mesmo percurso. Ganhou o casting, tal como eu, na mesma idade. Mas achei sempre que a SIC teria o constragimento de dar o sinal para fora de que vai ganhar o filho da Júlia. As pessoas iam pensar que o tinham beneficiado e ele ia ser prejudicado.
Imagina-se a trabalhar sempre na televisão?
Sim. Mas tenho duas coisas para fazer na vida: a arqueologia e escrever. Tenho o segundo romance a caminho ["Não Sei Nada Sobre o Amor" foi o primeiro].