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António José Teixeira: "2009 foi um ano de combate"

António José Teixeira: "2009 foi um ano de combate"

Na semana que a SIC Notícias completa nove anos, o director do canal anuncia novo grafismo, novos programas e novos rostos. Aos 48 anos, António José Teixeira orgulha-se de estar à altura da estação.

A SIC Notícias é o verdadeiro quinto canal?

É assim que ele está em casa dos espectadores... Será muitas vezes o quinto canal, mas deixe-me ter a pretensão de dizer que muitas vezes será o quarto, terceiro, segundo... e temos a ambição de algumas vezes sermos o primeiro. A ambição desde há nove anos é que este seja um canal de excelência na informação. Estamos não só a falar das 24 horas em directo e em português, que é o lema da estação, mas também da qualidade, da independência, da credibilidade, que são valores primeiros de quem construiu a estação.

Qual é o segredo para liderar o cabo?

Não sei se alguém sabe o segredo. Nós sabemos que o trajecto que fizemos mereceu sempre a aceitação dos espectadores e nós trabalhamos para eles. Quem faz televisão tem a obrigação de saber que trabalha para os espectadores e não para os jornalistas ou para a crítica. Desde o primeiro momento, em 2001, que a SIC Notícias liderou os canais temáticos, um caso raro, ou mesmo único, a nível internacional. E conseguiu manter essa liderança até hoje e vamos fazer para que se mantenha no futuro. Isto é tanto mais importante quando a concorrência e a proliferação de canais foi acontecendo e a nossa posição não se alterou. Isso quer dizer que o canal tem as características certas para quem vê televisão.

A concorrência imita a SIC Notícias?

Constato que os canais de informação em Portugal têm-se feito seguindo o mesmo modelo da SIC Notícias. Não se inovou. A referência tem sido a SIC Notícias. Mas cada um segue o caminho que entende.

O que mais gosta de ver na RTPN e TVI24?

Não me compete ser avaliador dos canais concorrentes. Respeitamo-los, obviamente. Tivemos um canal que surgiu em 2009 e outro que se renovou em 2008 e 2009... São canais que acompanhamos todos os dias.

Continua a achar que há concorrência desleal por parte da RTPN?

Não deixo de constatar que tem na sua base alguns aspectos de concorrência desleal, porque tem financiamento público e financiamento privado. Não me parece que esse seja o melhor modelo. É um dos múltiplos canais que o Estado detém e não acho que haja justificação para que o Estado ocupe tanto espaço.

E isso prejudica a SIC Notícias?

Não faço este juízo decorrente de qualquer benefício ou prejuízo. Em 2009 crescemos em audiências, apesar de termos tido maior concorrência. E crescemos bastante. O ano que passou foi um dos melhores de sempre da história da SIC Notícias.

Quase um ano após o nascimento de um terceiro canal de notícias, acha possível que todos sobrevivam?

Se olharmos apenas para os números de 2009 diremos que eles chegaram ao final do ano representando algo mais do que aquilo que o universo dos canais tinha antes. O mercado mostrou alguma flexibilidade, mas não sei no futuro. Três canais de notícias é uma originalidade portuguesa. Mas para mim a grande questão é que deve ser o mercado a decidir e não o Estado a interferir. O mercado é que deve decidir quem são os melhores, os que merecem a atenção dos espectadores e os que estão em condições de disputar as receitas que o mercado disponibiliza.
Que novidades podem os espectadores esperar para este ano?
2009 foi um ano de combate, porque a actualidade a isso obrigava, o que nos pôs à prova em todas as frentes. Três actos eleitorais, uma crise económica gravíssima... Tivemos uma agenda muito exigente. 2010 queremos que seja um ano de reforço e de renovação da SIC Notícias. Vamos apresentar novidades, quer ao nível da imagem da estação quer ao nível de estúdios e cenários, novos programas e também outras caras.

Como é que a crise condicionou a programação do canal?

Nós estamos habituados a gerir um orçamento rigoroso e magro, não só em 2009. Vivemos apenas das receitas que o mercado nos concede e fomos obrigados a ser muito rigorosos, algo a que já estamos habituados. A SIC Notícias sabe viver com poucos recursos. Não estamos habituados a esbanjar orçamentos.

Tem saudades de entrevistar Mário Soares, como fazia em Sociedade Aberta, antes de ser director da SIC Notícias?

Sim. Acho que foi um programa interessante. Foram dois anos em que se desfiaram algumas memórias, sobretudo do seu trajecto. Foi uma experiência interessante, como já houve outras, como comentador do canal desde o seu início.

Gostaria de voltar a ter um programa próprio?

Veremos. A minha principal função não é essa. Curiosamente, há dois anos, quando iniciei estas funções, iniciei um programa que já estava previsto antes, que foi A Regra do Jogo, que fiz com António Barreto e José Miguel Júdice. Poderão surgir outras ideias no futuro...

De que mais se orgulha de ter feito nestes últimos dois anos desde que é director do canal?

O que mais me orgulha é julgar ter estado à altura dos pergaminhos da estação. Passaram por aqui várias pessoas que fizeram muito por este projecto: o Nuno Santos, a Cândida Pinto, o José Fragoso, o Ricardo Costa. E nesta altura em que a SIC Notícias se viu confrontada com mais competição foi muito importante estar à altura das responsabilidades. Orgulha-me também ser um elemento de uma equipa grande da informação SIC, que é uma marca da televisão portuguesa. 

O conjunto dos canais do cabo vai ultrapassar os generalistas, como aconteceu nos Estados Unidos?

Acho que há uma tendência de crescimento dos canais temáticos e isso também se verificou em Portugal. Os números demonstram-no claramente e, porventura, essa tendência de crescimento vai continuar. Isto quer dizer que há uma fragmentação do consumo televisivo cada vez maior e que temos de estar atentos ao evoluir dos modelos de televisão, seja do formato tradicional generalista seja dos formatos especializados como o cabo ou outras plataformas. Não temos receitas de futuro definitivas, porque o mundo vai mudando muito depressa. Temos de estar preparados para adequar a oferta televisiva às expectativas dos espectadores. Do lado da informação devemos estar muito preocupados em perceber que o espectador aprecia a distância, a independência, a credibilidade... E que o trabalho de mediação jornalística que um canal de informação faz todos os dias será decisivo para merecer a preferência do espectador. Continuo a pensar que, apesar de todas as mudanças tecnológicas, a qualidade do trabalho de edição jornalística é fundamental para o reconhecimento do espectador. Isto independentemente da plataforma.

E nessa mediação também os comentadores têm um papel de enquadramento dos factos...

Sim, isso é importantíssimo. Nessa matéria temos de chamar a nós e manter na nossa equipa as pessoas mais qualificadas e com peso próprio. E ter um painel diversificado. Nós não defendemos um ponto de vista, damos espaço a vários pontos de vista. Essa característica de abertura e distanciamento tem sido uma marca desta estação.

Falou-se muito de pressões políticas sobre a comunicação social durante o último ano. Alguma vez a sentiu neste cargo?

Eu já trabalhei em vários órgãos de comunicação social e julgo que o jornalista que se orgulha de ser jornalista deve estar habituado a trabalhar em ambientes mais complexos, mais difíceis, mais pressionantes. Reconheço que este Governo muitas vezes não se distinguiu por respeitar em toda a linha a liberdade de informação, mas o importante é que os jornalistas se façam respeitar. E, desse ponto de vista, resistir à pressão.

Só é pressionado quem se deixa pressionar?

Não devemos deixar de denunciar situações que atentem com gravidade à liberdade de informação. E estes anos não foram muito saudáveis. Do nosso lado, o que importa é nunca ceder a qualquer tipo de condicionamento. Se alguma cultura este grupo empresarial tem, e que o seu fundador imprimiu, é a liberdade de informação. Aliás, eu tenho vindo a insistir nesse discurso porque o acho fundamental. Passa por aí muita da nossa credibilidade.

Sente-se um José Eduardo Moniz do cabo?

Não (sorrisos). Sou o jornalista António José Teixeira que procura fazer o seu trabalho com humildade integrado em equipas. Não tenho qualquer ambição de protagonismo.

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